(1983) Kiss – Lick It Up


Por Hellion

O ano é 1983, e muita coisa estava acontecendo no planeta Kiss. Após a decepção (em termos comerciais, claro) que foi Creatures Of The Night (1982), que vendeu pouco e não lotou os shows, os até então mascarados novaiorquinos com seu mais novo pupilo, o genial e problemático Vinnie Vincent, desceram até a República das Bananas para uma série de shows que se tornou importante na KISStory por vários motivos. Primeiro pelo recorde de público da banda no Maracanã, um número não especificado, já que a organização estava um tanto quanto caótica, mas estima-se de 130 a 200 mil pessoas. E segundo, pelo fato de que o último dos 3 shows, que ocorreu no estádio do Morumbi em São Paulo, foi o último show com maquiagem (pelo menos até a reunião da formação original em 1996).

Reza a lenda que Paul Stanley levantou a hipótese da retirada das maquiagens ainda durante as gravações de Creatures Of The Night, mas Gene Simmons foi relutante, até mesmo por ser o membro que tem as características de palco mais fortes em relação ao personagem. Porém, com o fracasso do álbum e da turnê, a única opção para fazer o Kiss retornar aos holofotes era o impacto da retirada das máscaras.

Tomada a decisão, o Kiss entrava em estúdio para a gravação de Lick It Up, que contou novamente com a produção de Michael James Jackson, e por esse e outros motivos pode ser considerado o sucessor de “Creatures”, musicalmente falando, talvez um pouco mais palatável, e com menos destaque para a bateria de Eric Carr (Aquela pegada nunca mais :(). A capa do álbum é a primeira fotografia oficial da banda sem maquiagem, e aposta na simplicidade em termos visuais, tentando provar que o Kiss ainda poderia ser uma grande banda, mesmo sem os efeitos de palco.

A turnê de divulgação de Lick It Up começou na Europa, mais precisamente em Portugal, onde no primeiro show, Gene Simmons repetiu o truque do sangue falso em seu solo de baixo pela primeira e última vez sem máscara. O velho demônio manteve o ritual de cuspir fogo, mas a retirada das maquiagens faria com que Simmons passasse alguns anos meio perdido no palco e ofuscado pelo Starchild que à partir dessa época entrava em seu auge de potência vocal e habilidade como frontman.

Lick It Up é o famoso caso do “disco de uma música só”, no caso, a faixa-título, única tocada até hoje nos shows, mesmo com a volta das maquiagens. Talvez por ser de longe a mais comercial e menos pesada, já que como dito anteriormente, o álbum pode sim ser considerado um “Creatures 2”.

Sem mais delongas, aumente o som porque, por incrível que pareça, você não vai ouvir tanta farofa assim por aqui.

Melhor música: Muitas faixas no mesmo nível, mas pra citar uma: A Million To One

Pior música: Dance All Over Your Face

1 – Exciter (Stanley/Vincent) (4:10) 5/5

A introdução inconfundível da primeira faixa abre o álbum de uma forma certamente cadenciada, mas com bastante peso. A letra é bem forte e o refrão ótimo, Paul Stanley cantando PRA CARALHO. Até chegarmos na parte polêmica da faixa: o solo. Brian Jones Vinnie Vincent não toca o solo aqui, o responsável pelo “bululu” é Rick Derringer, que desempenha muito bem o ofício. O problema é que Vinnie só descobriu que Paul e Gene não haviam colocado a sua versão do solo depois que tudo já estava pronto, e assim começava a história de amor Paul/Gene x Vinnie Vincent. A faixa foi tocada em alguns shows da turnê, dando a Vinnie a oportunidade de tocar o solo original, apesar de sinceramente, a versão de Derringer ser superior. Grande faixa, by the way.

2 – Not For The Innocent (Simmons/Vincent) (4:32) 4/5

A primeira aparição do Demon acontece já na segunda faixa, que na demo original era cantada em dueto com Paul Stanley. Mas convenhamos, essa pegada meio soturna do refrão e a letra com versos do naipe de “Lock up your daughters, we’re coming to your town” é ou não é a cara de Gene? O figuraça manda muito bem nos vocais, arriscando até algumas notas bem altas no final e berrando bastante, e o solo, agora sim tocado por Vincent tem a marca registrada do próprio, apesar de não ser espetacular.  Mantém o bom nível e o peso do álbum, até mesmo porque lá vem a próxima…

3 – Lick It Up (Stanley/Vincent) (3:59) 3/5

Existem músicas boas, e músicas legais. “Lick It Up” é muito legal. Uma das bases fundamentais de toda a farofada que aconteceria principalmente na segunda metade dos anos 80, a faixa tem toda a cara do Kiss nessa época, com bastantes coraizinhos fofos no refrão, e teve até um vídeo (um tanto quanto tosco) que fez algum sucesso na época. Nada a acrescentar sobre a faixa em si, apenas o fato de que vai demorar um tempo pra você parar de cantarolar mentalmente: “Lick it up, lick it up, o-o-ooooohhh! it’s only right now! Lick it up, lick it up, o-o-oooooohhh! whoo yeah! Lick it up, lick it up, o-o-oooooohhh! Come on, come on! Lick it up…”

Merda, não consigo parar…

4 – Young And Wasted (Simmons/Vincent) (4:04) 4/5

Ainda com o maldito refrão da faixa anterior na cabeça, o ouvinte tenta prestar atenção no riff da faixa seguinte e imediatamente vem à mente a clássica “Parasite” do álbum Hotter Than Hell de 1974, com seu riff também rápido e grave. Simmons assume novamente os vocais e continua cantando bem “rasgado”. Pra quem acompanha o Kiss até hoje, tente imaginar Gene cantando uma faixa como essa na turnê atual. Manenfodendo. Notas altas principalmente no refrão, que é bem simples, mas funciona perfeitamente. A grande sacada são algumas “paradas” no final da faixa, e o solo que a encerra já no fade-out, que se você prestar atenção, verá que é bem melhor do que o solo principal. Foi tocada em shows até meados de 1985, mas à partir de um determinado momento (em algum lugar da Animalize Tour), Eric Carr assumia os vocais ao vivo, com sua voz rouca que se encaixava perfeitamente, ou também pelo fato de que Gene não aguentaria dar esses gritos todos ao vivo. Em todo caso, pancadaria das boas.

5 – Gimme More (Stanley/Vincent) (3:41) 5/5

Já que eu aposto que o refrão de “Lick It Up” ainda não saiu totalmente da sua cabeça, lá vai mais uma pancadaria pra tirar ele na marra! Riff rápido assinado por Vinnie Vincent, que já manda um pequeno solo matador logo no início, letra sacana no melhor estilo Gene Simmons, apesar de não ser obra dele, e sem querer ser repetitivo, mas Paul Stanley está cantando PRA CARALHO². Quer mais o que? Um solo digno da fama de Vincent? Tem também! Essa também era a faixa usada nos shows para o momento solo do Ankh Warrior, que por sinal, acabava se estendendo mais do que o necessário na maioria das vezes, deixando Paul Stanley muito puto na beira do palco. Lembrando que esse tipo de atitude foi responsável pela demissão de Vinnie ao final da turnê européia, e recontratação deste para a turnê norte-americana, e nova demissão ao final da turnê norte-americana. Voltando à faixa, trata-se de um Kiss bem pesado e rápido para os padrões. Típica música que ninguém imagina que está no mesmo álbum da grudenta “Lick It Up” (“…o-o-oooohhh! It’s only right now!” – Tá foda…).

6 – All Hell’s Breakin’ Loose (Carr/Stanley/Vincent/Simmons) (4:34) 5/5

Diferente, porém, genial! O riff principal, já exótico por natureza, foi idealizado por Eric Carr, que tinha em mente uma canção na linha do Led Zeppellin. Ao apresentar o riff à Paul Stanley, o Starchild gostou e resolveu incrementar com versos de rap (!). Vincent e Simmons colaboraram com alguns detalhes, e apesar da cara de “FUUUUUUUUU!!!!!!” que Eric Carr deve ter feito quando ouviu a idéia de Stanley, a faixa é uma das melhores do álbum, foi single, e ganhou até clipe, por sinal, bem parecido com o da faixa-título, e também é provavelmente a segunda mais lembrada do disco, depois da já citada. Os versos “falados” por Paul Stanley não incomodam em nada, como pode parecer, e o refrão é realmente forte. O solo de Vinnie Vincent é possivelmente um dos melhores de sua carreira, mas o destaque da faixa vai realmente para os backin’ vocals de toda a banda no refrão e nos versos que o precedem, muito bem executados e dando um “punch” muito foda na cadenciada faixa.

7 – A Million To One (Stanley/Vincent) (4:17) 5/5

Eu já disse que Paul Stanley está cantando pra caralho? Se sim, foda-se. Paul Stanley está cantando PRA CARALHO³. A única semi-balada do álbum é de arrepiar, e se não concorda comigo é porque ainda não chegou ao final do refrão. A potência que o Starchild alcança aqui é simplesmente absurda, e a faixa como um todo é fantástica. Mais um ótimo trabalho de Vinnie Vincent na guitarra solo, mas tudo aqui é ofuscado pelo vocal. A faixa foi tocada na turnê solo de 2006 de Stanley, promovendo seu álbum Live To Win, e mesmo não parecendo ser possível, a versão ao vivo é ainda melhor, e apesar dos 23 anos de diferença da gravação original pra ao vivo, Stanley consegue ser impecável.

8 – Fits Like A Glove (Simmons) (4:04) 5/5

Pra quem estava com saudades do velho demônio, saiba que ele volta pra ficar, já que a faixa anterior foi a última com Stanley nos vocais. Em uma das duas únicas faixas que não são assinadas por Vinnie Vincent, o cidadão mostra competência no riff, apesar do baixo de Simmons estar mais evidente. Aliás, os vocais de Gene estão ótimos por aqui, e quando ele resolve subir o tom, temos uns gritos dignos de aplauso. Foi tocada exaustivamente nos anos sem maquiagem e funciona muito bem ao vivo, apesar de Simmons nem sempre conseguir dar os já citados gritos que acontecem em dois momentos particulares durante a faixa, no final de um dos refrãos e durante uma genial pausa que antecede o solo. Essa pausa também contém aquela que é liricamente a pérola do álbum, quase um “Pensamento do dia”:

“Cause when I go through her, it’s just like a hot knife through butter, ooh yeah!”

Pedreiro é a mãe! _|_

Próxima!

9 – Dance All Over Your Face (Simmons) (4:13) 3/5

A segunda faixa escrita apenas por Simmons conta com um riff bem interessante e os vocais de Gene estão mais próximos do estilo “clássico” bem graves,  e mais limpos em alguns momentos. Trata-se de uma canção clássica do Kiss oitentista, tanto na levada quanto no discreto solo de guitarra, que lembra bastante o que os sucessores de Vinnie Vincent fariam nos anos seguintes. Boa faixa apenas.

10 – And On The 8th Day (Simmons/Vincent) (4:03) 5/5

“And on the 8th day, God created Rock and Roll!!!”

Pros apaixonados pelo estilo, isso em si já é um hino. A faixa responsável por encerrar o álbum é daquelas pra ouvir em pé, ereto, e cantando junto! A letra exalta o Rock e os rockeiros em si de uma forma simplesmente nobre, na voz de Gene Simmons, que mais uma vez nos brinda com uma excelente performance vocal. O riff tem aquela aura “épica” e é assinado por Vinnie Vincent, que mesmo tendo se mostrado até discreto nos solos do álbum (o próprio guitarrista diz que tocou 25% do que é capaz em Lick It Up), garante o respeito de todos pelo belo trabalho de guitarras por aqui. Lick It Up marcou o começo de uma nova era na carreira do Kiss, e com o tempo acabou sendo esquecido, com exceção da faixa-título, e termina com classe como todos os melhores álbuns do Kiss.

E eu tenho certeza que ao final da audição do álbum, só uma coisa vai estar na sua cabeça…

“Lick it up, lick it up, o-o-ooooohhhh!!!…”

DAMN!

Média do álbum: 8/10

Notícia de um jornal da época da retirada das maquiagens (ainda com Ace Frehley). Consegue achar algo de errado aí?



Em algum show da turnê de Lick It Up. Como pode ser visto, o palco era o mesmo da turnê anterior.

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  1. #1 por joaora em 24/01/2011 - 19:19

    Não Gosto desse álbum… É muito limitado se comparado ao seu antecessor… De alguma forma, não me agrada!

  2. #2 por Flávia em 03/02/2011 - 10:59

    Eu tenho o Creatures of the Night em LP *-* (informação inútil feelings).

    Na minha opinião, eu acho que a partir do Lick it Up eles firmaram mais a pegada, ficou um som mais pesado, mas sem perder a essência. E a turnê de Lick it Up é uma das mais fodas! \o/

    • #3 por Hellion em 03/02/2011 - 14:24

      Creatures em LP, meu Deus *-*
      Tive a oportunidade de ouvir uma vez em LP e o som quase me fez escapar uma lágrima UAHUAHUAHUA *-*

      E a turnê de 10º aniversário (Creatures/Lick It Up) é digna de ter um revival com a bateria em cima do canhão e tudo, também adoro essa época.

      Obrigado pelo comentário! \o/

  3. #4 por triplo H em 16/06/2011 - 2:46

    concordo que a pegada Hard ‘N’ Heavy contida em ”Creatures” deu uma decaida aqui,mas o album tem o padrão de qualidade Kiss e isto basta!!!
    Minha preferida é ”And On The 8th Day”,God created Rock and Roll.este refrão ficou mais na minha mente que a propria… …ah,vocês sabem!!!hehehe
    O Hard ‘N’ Heavy retornaria com tudo no disco posterior (Animalize de 1984) dando de vez inicio a minha fase favorita do Kiss!!! Long Live Hard ‘N’ Heavy

  4. #5 por Guzz em 28/01/2013 - 0:26

    Esse disco é Phodda!
    Gosto de todas.
    Ah, Young and Wasted é cantada pelo Eric Carr e não pelo Gene, mas só fui ver isso nos shows, também pensava igual a você.

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