(1981) Kiss – Music From ‘The Elder’


Por Hellion

O dia de hoje marca uma data triste para a música em geral. Há exatos 19 anos, o inigualável Freddie Mercury, frontman do Queen fazia sua viagem ao outro lado. E no mesmo dia, outra lenda partia, Eric Carr, baterista do Kiss. Como uma forma de relembrar um dos maiores bateristas de todos os tempos, posto agora no Roque Veloz o primeiro álbum de Carr com a banda, o controverso e genial Music From ‘The Elder’.


Music From ‘The Elder’ é um dos maiores divisores de águas na multiplatinada carreira do Kiss. Primeiro, ironicamente por não ser multiplatinado, mal tendo conseguido um disco de ouro muitos anos após seu lançamento. E em segundo por ser um dos álbuns mais excêntricos e controversos da discografia da banda. O Kiss vinha de dois discos bem comerciais, flertando com a então na moda Disco Music, e acabava de perder o primeiro dos membros originais, o baterista Peter Criss. Em seu lugar, entra Eric Carr, um baterista totalmente diferente do velho Catman, com raízes mais rock and roll e uma batida fenomenal. Isso fez com que a banda vivesse uma espécie de crise de identidade. Foi nessa época que Paul Stanley começou a sugerir o abandono das maquiagens, idéia repudiada por Gene Simmons, que acabou cedendo poucos anos depois.

Ace Frehley sempre foi o mais “rocker” da banda, e era o único que de certa forma sabia o rumo que queria tomar. Ace tinha um projeto entitulado “Rockin’ With The Boys” que tinha por objetivo voltar às raízes do Kiss, com um som mais direto e cru. A idéia foi abandonada no meio do caminho, e reaproveitada posteriormente no álbum Creatures Of The Night (1982). A verdade é que Ace estava em uma péssima fase, bebendo muito mais do que o normal (se é que é possível), fazendo muita merda e ameaçando sair da banda. Uma das condições do guitarrista para permanecer no barco, era gravar suas partes do novo álbum em seu estúdio particular, e assim foi feito. Nessas seções na casa de Ace, foram gravadas muitas demos que seriam mais tarde aproveitadas tanto pelo Kiss quanto por Ace em sua carreira solo. Tudo seguia na linha do projeto de Ace, quando Gene aparece com um roteiro para um suposto filme épico, no qual o Kiss faria a trilha sonora. Bob Ezrin foi chamado novamente para a produção, e começava a surgir o conceitual do Kiss.

A prova de que os álbuns conceituais não são o negócio deles, é que a história em si é extremamente confusa, não da pra seguir uma linha de raciocínio no álbum, apenas percebemos que as faixas têm conexão. Lembram do projeto de volta às origens? Foi jogado fora com a chegada do “ditador” Ezrin, e a banda seguiu uma linha bem melódica, com partes puxando até para o rock progressivo. Ace ficou puto por ter sua idéia abandonada e praticamente não participou do álbum, fato que, ao lado dos excessos, contribuiria para sua saída da banda. Anos depois ele diria que preferia ter feito Creatures Of The Night ao invés de ‘The Elder’.

Enquanto os fãs mais “die hard” torciam o nariz só de olhar para a capa, a crítica cobriu o disco de elogios. Talvez esse tenha sido o erro do Kiss: lançar um álbum para agradar os críticos. Até o visual havia mudado. A banda tinha um visual mais limpo agora, com cabelos curtos e sem botas de plataformas gigantes, com destaque para uma faixa roxa que Paul Stanley usava na testa, completando o visual “comportado”.

Com o passar dos anos, o álbum ganhou um status ‘cult’ entre os fãs, divididos entre os que amam e os que odeiam o álbum. Os próprios Paul Stanley e Gene Simmons não gostam do disco. Paul diz que é um bom álbum, mas não um bom álbum do Kiss. Enquanto Gene, talvez mais sincero, diz que simplesmente não gosta do álbum, e o considera um erro.

No final, Music From ‘The Elder’ acaba sendo uma tentativa do Kiss de rebuscar sua identidade perdida nos álbuns anteriores, algo que só seria conseguido com o sucessor. O álbum marca também a saída de Ace Frehley da banda.

Melhor música: The Oath (No vídeo com as imagens da apresentação no ‘Fridays’ 1982 e áudio da versão de estúdio)

Pior música: Odissey

Como dito anteriormente, a história durante ó álbum é bem confusa. Aos que vão se aventurar a tentar entendê-la, aqui vai uma nota presente no álbum, que tenta explicar o começo da história:

” ‘When the earth was young, they were already old…’

Since the dawn of time, the Elder have watched silently over a virgin world and all its creatures…

Now, they have assumed the form of mortals so that they might walk amongst men and guide them.

The Elder are an ideal…They embody the wisdom of the ages and the power of goodness and knowledge… But the Elder were not alone in the beginning and are not alone still…Another force has existed eternally…

In every place, in every time, an evil is loosed whose sole purpose is to destroy all that is good. And in every time, and every place, it is the task of the Elder to find and train a warrior…a champion to conquer the evil.

As the looming clouds gather, the council of the Elder sits at their ancient table under the sign of the Rose. Once again they must combat the evil that is lurking in darkness and spreading throughout the world.

They await the word from Morpheus, the caretaker, whether the boy be deemed ready for the sacred rite of accession to the Order of the Rose…and for the pronouncement of his sacred duty…

The odyssey begins…”

1 – The Oath (Stanley/Ezrin/Powers) (4:32) 5/5

Por incrível que pareça o álbum começa com o peso de um ótimo riff cavalgado e grande trabalho do estreante Carr nas baquetas. Os vocais de Paul Stanley estão amadurecidos em relação aos anos 70, sem tons muito altos, porém com uso de falsette no refrão. A faixa tem de fato um clima épico, com um solo curto, mas bem executado por Paul Stanley. Como curiosidade aqui, vale o fato de que quase todo fã do Kiss sonha secretamente (ou não) em ouvir essa música ao vivo. E não me digam que não é bem assim, eu sei que você se arrepia só com a intro.😉

2 – Fanfare (Ezrin/Stanley) (1:22) 3/5

Liricamente, “The Oath” funciona como uma introdução ao conceito do álbum. Em “Fanfare”, temos a introdução à parte conceitual propriamente dita. Trata-se de uma faixa instrumental, orquestrada, com um clima bem medieval. É a cara do Bob Ezrin, que parece ter sido o grande responsável ao lado de Gene pelo conceito do álbum, e pela pegada quase progressiva que o Kiss apresentou aqui.

3 – Just A Boy (Stanley/Ezrin) (2:30) 5/5

Esse é o tipo de coisa que me faz gostar desse álbum. Uma linda balada acústica, com uma das melhores performances vocais de Paul Stanley na história do Kiss (Podem me xingar nos comentários). O refrão é de arrepiar, com as batidas mais pesadas de Carr entre os versos, e até alguma distorção no final. Ace Frehley, em seu último álbum com o Kiss antes de Psycho Circus (1998) está extremamente inspirado, e toca um solo maravilhoso nesta faixa. Lembrando que boa parte de ‘The Elder’ foi gravada na casa de Ace, no “Ace In The Hole Studios”, o que provavelmente ajudou para que o guitarrista ficasse mais a vontade, apresentando um dos seus melhores trabalhos, principalmente nos solos.

4 – Dark Light (Frehley/Fig/Reed/Simmons) (4:12) 5/5

Acabei de dizer que Ace estava inspirado e a vontade, e lá vem mais pedrada do Spaceman. Aqui a voz de bêbado mais legal do rock aparece, longe de ser boa, mas é compensada por um riff criativo e com a cara do Ace. Atrevo-me a dizer que o solo dessa faixa é o melhor da carreira do cara, genial, com muitas variações, e transbordando de feeling. Outra peculiaridade é a bateria de Eric Carr, com um swing bem legal, e uma pegada quase de música latina, que fica bem evidente durante o solo de guitarra. Altamente recomendada pra quem já é fã do Space Ace, pra quem não conhece, e até pra quem não gosta do trabalho do cara.

5 – Only You (Simmons) (4:19) 4/5

Se alguém tinha dúvidas da excentricidade musical de Gene Simmons, elas acabaram com o lançamento dos 4 solos em 1978 ( onde Gene nos brinda com coisas como o tema do Pinóquio da Disney (!!). Mas, se alguém continua em dúvida sobre isso, recomendo esta faixa. Gene canta, toca guitarra e baixo aqui, e se você está acostumado com os vocais rasgados e as letras safadas, típicas das composições do velho demônio, caia fora! Os vocais aqui são totalmente limpos e melódicos. O baixo ainda é bem alto, mas sem a agressividade de antes. Após alguns versos e o refrão épico a la bandas de Power Metal, Paul Stanley assume os vocais em uma segunda parte um pouco mais pesada. Boa faixa, mesmo não parecendo em nada com o Kiss que todos conhecem. O fim da faixa se confunde com o início da próxima…

6 – Under The Rose (Carr/Simmons) (4:49) 5/5

Emendada com a faixa anterior, e também quase irmã desta, “Under The Rose” segue a mesma linha, com os vocais limpos de Gene, e o refrão ainda mais épico com coro e tudo. Ótimas partes de guitarra depois do refrão, e uma base de teclados durante os versos cantados por Simmons. É também a primeira composição de Eric Carr no Kiss.

7 – A World Without Heroes (Stanley/Ezrin/Reed/Simmons) (2:40) 5/5

Provavelmente a faixa mais conhecida do álbum. Uma linda balada, com uma pegada meio prog. Novamente Gene assume os vocais por aqui, e mais uma vez limpos e melódicos. Tem uma bela letra também. O solo fica por conta de Paul Stanley, que mandou muito bem. A faixa é famosa por ser uma das mais aclamadas no MTV Unplugged (1995), já que muitos fãs (este que vos escreve, inclusive) gostariam de ver material de ‘The Elder’ tocado ao vivo, e também por seu vídeo-clip onde Gene Simmons chora no final. Pra quem não acredita:

8 – Mr. Blackwell (Simmons/Reed) (4:53) 4/5

Apenas Gene Simmons e o ronco de seu baixo. Assim começa esta faixa, que conta novamente com os vocais de Gene, duas vezes, já que temos a sobreposição de duas vozes do Demon. Os versos são intercalados por um baixo bastante distorcido, e caímos no ótimo refrão, agora com um riff mais definido. Apesar de estranha, essa faixa tem, de alguma forma, mais cara de Kiss do que o resto do álbum, principalmente o riff. Paul Stanley sola novamente, e manda muito bem mais uma vez, agora com um solo bem mais pesado. A faixa seria perfeita pro solo de baixo de Gene Simmons nos shows, pena que nunca houve uma turnê de divulgação do álbum, e mais pena ainda que a banda nunca toca material desse disco.

9 – Escape From The Island (Frehley/Ezrin/Carr) (2:50) 5/5

Ace Frehley nos brinda com um ótimo instrumental em parceria com Eric Carr e Bob Ezrin. Ezrin tocou baixo aqui, porém Ace e Eric são as estrelas do show. Carr da uma pequena amostra da carnificina que faria no ano seguinte em Creatures Of The Night (1982), com uma pegada e técnica inigualáveis. E Ace, bem… eu já disse que o cara estava inspirado, não disse? O Spaceman simplesmente destrói tudo com seus riffs e solos fantásticos. Durante as gravações do álbum, muitas jams foram feitas por Ace e Carr, inclusive uma faixa intitulada “Heaven” que não foi incluída no álbum. A faixa tratava-se de alguns riffs e um solo de bateria, porém foi descartada por não terem conseguido colocar uma letra. Alguns anos depois, no primeiro álbum solo de Ace, a faixa foi lançada como “Breakout”, já com letra e sem o solo de bateria. Em 1992, no álbum Revenge do Kiss, a faixa foi finalmente lançada sob o nome de “Carr Jam 1981”, onde foram colocados apenas alguns solos feitos por Bruce Kulick (guitarrista do Kiss na época). Estas são algumas amostras da criatividade da dupla Ace Frehley/Eric Carr, que infelizmente não tiveram tempo o suficiente para trabalharem juntos.

10 – Odyssey (Powers) (5:36) 2/5

Muita gente quando ouve o álbum pela primeira vez fica com aquela sensação de “Mas que caralhos é isso??”. Comigo isso não aconteceu, sabia da fama do disco e já fui ouvi-lo sabendo que não ia ouvir algo normal. Essa sensação só me vem quando ouço essa faixa. A introdução com piano e passagens orquestradas nos faz achar que vai entrar o Frank Sinatra cantando. E acertamos. Paul Stanley banca o barítono aqui, e isso definitivamente não soa bem. A voz do Starchild continua potente e sempre bem colocada, mas não da certo. A faixa em si é um tanto melosa, principalmente no refrão, como já foi dito, bem ao estilo Frank Sinatra. Sinceramente, ouvindo o álbum do início ao fim, na minha opinião, a única faixa em que o Kiss exagerou no experimentalismo foi essa. Ainda bem que esse experimentalismo chega ao ápice, mas acaba aqui…

11 – I (Simmons/Ezrin) (3:52) 5/5

Se você chegou até aqui e ainda tem dúvida se era o Kiss mesmo tocando até agora, essa faixa vai soar como “RÁÁÁÁÁ!!! Pegadinha do Mallandro!!!”. Pois é, o Kiss resolveu aparecer na última faixa! Aquele clima de festa e o refrão grudento que só os mascarados de NY sabem fazer aparecem finalmente, com Gene e Paul dividindo os vocais (como sempre acontece em pelo menos uma faixa nos álbuns do Kiss produzidos por Bob Ezrin). O refrão é digno de ser cantado junto, com Paul e Gene agitando bastante no final. Pensou em como essa faixa soaria ao vivo? Pois é, eu sempre penso, e seria fantástico. Irônico é que justamente os responsáveis pelo clima mais introspectivo e leve do álbum é que nos brindam com essa porrada bem nos moldes do Kiss. É pra por no talo e sair cantando!

Média do álbum: 9/10

Curiosidades:

  • A mão na capa do álbum é de Paul Stanley.
  • A história é baseada no roteiro de um filme escrito por Gene Simmons. Esse filme nunca existiu.
  • Não houve turnê de divulgação do álbum, pois este não teve boas vendagens. Foi feita apenas uma apresentação ao vivo no programa de TV ‘Fridays’ em 1982, onde foram tocadas as faixas “The Oath”, “A World Without Heroes” e “I”.
  • Todos os membros da banda cortaram o cabelo nessa época, menos Gene Simmons, que apenas prendia o cabelo.

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  1. #1 por david em 02/12/2010 - 2:10

    makes me want to drink alchoholic beverages

  2. #2 por Samantha em 23/03/2011 - 14:28

    Putz..eu sempre soube que aquela mão era do Paul, por comparação..Adorei a resenha do disco, eu realmente gosto dele.Tem pouco do Kiss-festa, é verdade, mas mostra um outro lado muito bacana de uma das bandas mais carismáticas do rock’n’roll! Curti!

  3. #3 por Julio Cesar em 06/08/2011 - 11:38

    Pois é…
    Comecei curtir rock´n roll aos 11 anos de idade.. e isso foi lá pelos idos de 1978.
    Agradeço até hoje ao bom Deus por essa escolha.

    MInha banda “mãe” é o Kiss mas nem por isso babo em tudo o que os caras fazem mas… The Elder é simplesmente maravilhoso…
    Mas é como diz o ditado… The Elder você ama ou odeia, e eu amo…

    Saudades de Eric Carr e sua imponente bateria. Sem dúvida um dos maiores bateras de rock´n roll da história, que sem dúvida, influenciou muita gente a tocar bateria, inclusive eu.

    Mas a raposa ainda vive em sua obra e ainda hoje me delicio com Creatures of the Night (parece que foi ontem que entrei na loja pra comprar a bolacha, e ainda a tenho aqui, original)

    É isso ai, vida longa ao Rock´n Roll

    Abraços

  4. #4 por joaora em 06/08/2011 - 19:48

    Horrível ….

  5. #5 por Marco Antônio em 26/03/2014 - 9:16

    Não sei porque esse álbum é tão criticado. Talvés por esse ser o 1º álbum do Kiss que eu ouvi, isso lá em 1982, o fato é que eu amo TODAS as músicas.
    Aliás, pra mim, o álbum é uma música só.
    Junto com Kiss, Hotter Than Hell, Dressed To Kill, Alive!, Destroyer, Rock´n´roll Over, Love Gun,
    AliveII, os 4 solos, Dinasty, Unmasked e Creatures Of The Night esse também pertence ao Best of Kiss! Valeu.

  1. (1980) Queen – The Game « Roque Veloz /,,/
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